segunda-feira, 27 de julho de 2015

A foto - Lady Viana

Imagem: Vampire, by Munch




No estúdio.

—Quem é essa na foto?

—Veio com a moldura.

Raque empoeirado.

—A luz está perfeita, vamos começar?

Preparação, ajuste de exposição.

—Tira... tira esse cabelo do rosto – ele afasta o cacho dos olhos da modelo – Tira esse cabelo do rosto. Ele é lindo, mas há algo no seu rosto que intriga.

Ela, indiferente.

—Algo no seu rosto que me intriga.

O som alto das fotos batendo incomodam os desacostumados.

—Naquele lado, naquele lado! E rápido, não podemos perder esse sol.

Mudou de lado no cômodo.

—Agora ali – aponta com uma mão, a outra segurando a robusta câmera.

—Por que tira tantas fotos? – ela perguntou, interrompendo um longo silêncio barulhento de fotos tiradas.

Ele para.

—Acredita em amor à primeira vista?

—Não – a resposta seca nada mais foi que sincera.


—Pois eu acredito. E como não posso ter você, terei fotos. Sempre me lembrarei, então, do porquê de levantar de manhã.

domingo, 26 de julho de 2015

Poema a meu querido irmão branco - Léopold Sédar Senghor


Quando eu nasci, eu era negro
Quando eu cresci, eu era negro
Quando eu vou ao sol, eu sou negro
Quando eu estou com frio, eu sou negro
Quando eu estou com medo, eu sou negro
Quando eu estou doente, eu sou negro
Quando eu morrer, eu serei negro

E você, Homem Branco,
Quando você nasceu, você era rosa
Quando você cresceu, era branco
Quando você vai ao sol, fica vermelho
Quando você fica com frio, fica roxo
Quando você está com medo, fica branco
Quando fica doente, fica verde
Quando você morrer, ficará cinza
Então, entre nós dois, quem é mesmo o homem de cor?

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Marcas do Tempo - Emmaneuelle


Quero me agregar à sombra reconstruída
No reflexo da luz, no chão diminuída
No toque morno da tua mão
No amor que guardei, no coração
e nos poemas que compus.
Reencontrar os sonhos que se dissiparam
No momento raro, quando despertei
E percebi o vazio no teu lugar,
Úmido do choro que as lágrimas molharam.
Quero adormecer e me perder ao sonhar
Nas nuvens que imaginei soltas no ar
Na vertigem de um momento ao te abraçar,
Apagar as marcas deixadas pelo tempo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A assembleia dos ratos - Fábulas de Monteiro Lobato

assembleia-dos-ratos
Ilustração: Gustave Doré



Um gato de nome Faro-Fino deu  de fazer tal destroço na rataria de uma velha casa que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.

Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembleia para o estudo da questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado, fazendo sonetos à Lua.

__Acho - disse um deles - que o meio de nos defendermos de Faro-fino é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos a correr a tempo.

Palmas e bravos saudaram a luminosa ideia. O projeto foi aprovado com delírio. Só votou contra um rato casmurro, que pediu a palavra e disse:
__Está tudo muito direito. Mas quem vai amarrar o guizo no pescoço de Faro-Fino?

Silêncio geral. Um desculpou-se por não saber dar nó. Outro, porque não era tolo.Todos, porque não tinham coragem. E a assembleia dissolveu-se no meio de geral consternação.

Dizer é fácil; fazer é que são elas!